A Atenção Começa a Florir
Âmbito Cultural

A Atenção Começa a Florir

Poesia
DATA
20 de mar. às 18:30 h.
LOCAL
El Corte Inglés Lisboa - Avda. António Augusto de Aguiar, 31, 1069-413 Lisboa - SALA 2 DO ÂMBITO CULTURAL, PISO 6
ORADOR
Paulo Campos dos Reis, Pedro Jóia (guitarra) e José Anjos
ESGOTADO

As inscrições para o evento terminaram em 20/03/2026


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DESCRIÇÃO

O Âmbito Cultural do El Corte Inglés tem o prazer de convidar para a sessão do Ciclo Poem(A)r A Atenção Começa a Florir, por Paulo Campos dos Reis, Pedro Jóia (guitarra) e José Anjos. Dia 20 de março pelas 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa.

 

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Helder, Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990 (excerto do poema «Tríptico», de A Colher na Boca, 1961)


De um dos mais belos versos de Herberto Helder nascem duas sessões do Ciclo Poemar Consigo, em Gaia e Lisboa, para celebrar a primavera no que ela mais nos convoca: o recomeço, inevitável mas sempre inesperado (é o que nos salva) e a atenção que floresce na direção do espanto em descobrir o que por vezes nem sabíamos que estávamos à procura. Essa descoberta acontece também pela partilha da poesia [Vinicius de Moraes], porque foi para isso que fomos feitos. Como diz Irene Lisboa, é da boca que sai a primavera.

Em Gaia, dia 19 de março, o ator Rui de Noronha Ozorio junta-se à harpista Frederica Vieira Campos e a Isaque Ferreira. Em Lisboa, a 20 de março, o dramaturgo e encenador Paulo Campos dos Reis junta-se ao músico e compositor Pedro Jóia na guitarra (Prémio Carlos Paredes, 2008) e a José Anjos. Muitos foram os poetas que no rigor da espera se deixaram visitar pelo espanto das mais variadas primaveras e de tudo o que as sucede e precede: do recomeço em liberdade de Miguel Torga, à noite esplêndida e vasta de Herberto Helder, até ao dia inicial inteiro e limpo de Sophia de Mello Breyner. Por ora aguardamos, sabendo que, como tão bem escreve Cláudia R. Sampaio: (...) o que ainda não chegou / é infinito. E quando a noite é demais é que amanhece / a cor de primavera que há de vir [José Saramago]. Esperemos juntos.


Biografias

Pedro Jóia é uma referência incontornável da guitarra em Portugal. Começou a tocar aos sete anos com Paulo Valente Pereira, na Academia dos Amadores de Música em Lisboa, passando a estudar com Manuel Morais aos 15, quando se transferiu para o Conservatório Nacional, onde viria a concluir os estudos de guitarra clássica. Em paralelo inicia o estudo da guitarra flamenca, primeiro como autodidata e mais tarde em cursos com Paco Peña, Gerardo Nuñez e Manolo Sanlúcar. Começou a apresentar-se a solo e com outras formações instrumentais a partir dos 19 anos. Compõe regularmente para teatro e produções cinematográficas/televisão. Em 2008 recebeu o Prémio Carlos Paredes com o seu álbum À Espera de Armandinho. Em 2020 grava e edita o álbum Zeca, dedicado a parte da obra de José Afonso, com o qual foi galardoado, pela segunda vez, com o Prémio Carlos Paredes.

Paulo Campos dos Reis é pós-graduado em Teatro – Especialização em Artes Performativas, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, Instituto Politécnico de Lisboa (2011-13). Frequentou o Curso Superior de Jornalismo na Escola Superior de Jornalismo do Porto (1993-94). É diretor artístico do coletivo Musgo Produção Cultural, de Sintra. Ultimamente, vem encenando espetáculos com textos de autores portugueses/de língua portuguesa, dos quais se destacam Camões (2015-25), Sophia de Mello Breyner Andresen (2017), Herberto Helder (2017) e Jaime Rocha (2016-25). Escreveu profusamente para teatro. Traduziu A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett (com Francisco Luís Parreira), e encenou À Espera de Godot. Escreveu os livros de poemas Autógrafo Seguido de Autocolantes (Edições Quase) e Habilitações Literárias (Volta d’Mar).