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O Âmbito Cultural do El Corte Inglés tem o prazer de convidar para o Curso Orpheu Acabou. Orpheu Continua, por Ricardo Belo de Morais, a realizar-se nos dias 9, 10 e 11 de setembro, pelas 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa.
Sinopse
A Orpheu – Revista Trimestral de Literatura, expoente do Modernismo português, foi também a rampa de lançamento de Fernando Pessoa enquanto escritor. Com ele, podemos e devemos destacar também Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro, entre vários outros que também abordaremos: a Orpheu foi uma revista coletiva e plural. Face aos escritores e intelectuais portugueses do seu tempo, esta publicação de vida breve foi, ainda assim, bem mais que uma "pedrada no charco": fez-se marca do moderno, pistão de um Portugal futuro, incubadora de inovações e casa de arrojo.
Ao mesmo tempo, deixou-nos uma lição maior de união em prol de uma causa comum: a Orpheu nasceu porque um grupo de jovens geniais, quase todos em vias de lançar projetos em nome próprio, desistiram deles para unir esforços numa única revista homogénea no heterogénero, assim revelando uma geração inteiramente inovadora – e transgressora – da literatura e das artes nacionais.
Neste curso de três aulas, vamos conhecer mais em detalhe os três números da revista modernista “extinta e inextinguível”: os dois efetivamente publicados em 1915, mas também o terceiro, cujas provas de gráfica estiveram perdidas por décadas e só viram a luz do dia nos anos 80 do século passado.
1.ª SESSÃO — 9 DE SETEMBRO
Uma Pedrada no Charco.
Depois de um intenso ano preparatório, o n.º 1 da Orpheu é finalmente lançado em 24 de março de 1915. António Ferro, menor de idade, é escolhido para editor da revista, por não poder ser responsabilizado pelos conteúdos. A revista abre com uma nota introdutória de Luís de Montalvor, em que este anuncia o direito da publicação à diferença. Quase todas as colaborações têm um pendor simbolista-paúlico-decadentista: poemas de Sá-Carneiro para os Indícios de Oiro; poemas do brasileiro Ronald de Carvalho; O Marinheiro, «drama estático» de Fernando Pessoa; treze sonetos de Alfredo Pedro Guisado; Frisos (prosas) de Almada Negreiros; poemas de Armando Côrtes-Rodrigues; o Opiário de Álvaro de Campos e, também do heterónimo futurista, a vanguardista Ode Triunfal. Fernando Pessoa refere-se a Orpheu como uma unidade feita de multiplicidade, de individualidades, espelho cosmopolita de uma corrente literária original.
2.ª SESSÃO — 10 DE SETEMBRO
Insistir. Chocar. Resistir.
Na senda de uma chuva de críticas, dos salões à imprensa escrita, a Orpheu n.º 2 sai a 28 de junho de 1915. Este segundo número é ainda mais provocatório, trazendo como novidade absoluta quatro reproduções de pinturas cubistas de Guilherme de Santa-Rita e incluindo, para além dos poemas simbolistas do brasileiro Eduardo Guimaraens e de Luís de Montalvor, os «extravagantes» poemas inéditos de Ângelo de Lima; os Poemas Sem Suporte de Mário de Sá-Carneiro, incluindo o prodigioso, gráfico e futurista Manucure; Atelier (novela vertígica) de Raul Leal; a gigante Ode Marítima de Álvaro de Campos; poemas de uma enigmática Violante de Cysneiros; e Chuva Oblíqua (poemas intersecionistas) de Pessoa. Neste número, anunciam-se também uma série de conferências, com títulos «eventualmente chocantes», de Santa-Rita, Raul Leal, Manuel Jardim e Sá-Carneiro. No meio do sucesso editorial, uma escandalosa carta política de Álvaro de Campos dá origem à saída revoltosa de vários membros da revista. Pouco depois, o pai de Mário de Sá-Carneiro anuncia que não continuará a pagar as contas da Orpheu. O terceiro número da revista, em preparação, é adiado. A falta de mecenas e a morte por suicídio de Mário de Sá-Carneiro, em 1916, precipitam a inevitabilidade do fim do projeto.
3.ª SESSÃO — 11 DE SETEMBRO
Um Fim. E Todos os Princípios.
O n.º 3 da Orpheu chegou às provas gráficas do miolo, mas estas ficaram perdidas durante décadas. Reencontradas finalmente, foram publicadas apenas em 1984, muito depois da morte de todos os fundadores da revista. Podemos dizer que este é, conforme foi dado à estampa, um número de compromisso: integra composições com ecos simbolistas - como os poemas em prosa de Albino de Menezes (Após o Rapto), Augusto Ferreira Gomes (Por esse Crepúsculo. A Morte de um Fauno...) e Castelo de Moraes (Névoa); o poema Olhos de D. Tomás de Almeida; Para Além doutro Oceano de C. Pacheco; os póstumos Poemas de Paris de Sá-Carneiro; Gládio e Além-Deus de Fernando Pessoa - e a prodigiosamente excessiva A Cena do Ódio de Almada Negreiros, transmutado em «poeta sensacionista e Narciso do Egipto». É ele quem aliás nunca vai cansar-se, até à sua morte, de recordar e homenagear periodicamente Orpheu, os seus membros em geral e Fernando Pessoa em particular.
Biografia
Ricardo Belo de Morais é escritor e investigador literário, membro da equipa da Casa Fernando Pessoa desde 2012. Em 2013, passa a guiar passeios literários nas ruas de Lisboa. Publicou vários livros pessoanos, peças de teatro, traduções, ensaios literários e prefácios, ministrando regularmente palestras pessoanas e comparatistas em espaços culturais. Trabalhou em assessoria cultural com o Clube Português de Artes e Ideias, e na coordenação do gabinete de imprensa das Festas de Lisboa. Realiza e apresenta na rádio Movimento, há oito anos, o único programa semanal pessoano do mundo.