Poemar "O Esquecimento do Bem"
Âmbito Cultural

Poemar "O Esquecimento do Bem"

Poesia
DATA
18 de jun. às 18:30 h.
LOCAL
El Corte Inglés Lisboa - Avda. António Augusto de Aguiar, 31, 1069-413 Lisboa - SALA DE ÂMBITO CULTURAL, PISO 6
ORADOR
José Anjos, Paula Cortes e Sérgio Mendes (guitarra)
TERMINADO

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DESCRIÇÃO

O Âmbito Cultural do El Corte Inglés tem o prazer de convidar para a sessão do Ciclo Poem(A)r "O Esquecimento do Bem: Se Isto É Um Homem – Pensamento e Poesia a Partir de Primo Levi e Wislawa Szymborska", por José Anjos, Paula Cortes e Sérgio Mendes (guitarra). Dia 18 de junho pelas 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés de Lisboa.

 

O que pode a poesia perante a desumanização?

No ano em que se celebram oitenta anos desde a libertação daquele que foi o maior e mais mortífero dos campos de concentração nazis, relembramos as palavras do filósofo alemão Theodor Adorno: “É possível a poesia depois de Auschwitz?”

Esta questão (uma das muitas que se mantêm ou, infelizmente, repetem) foi directamente respondida por Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e autor de “Se isto é um homem”, testemunho objectivo dos horrores vividos naquele campo, que assume o título do poema que lhe serve de epígrafe. Levi, considerando-se “um homem que pouco acredita na poesia”, passou a praticá-la, ainda que “a hora incerta", depois da sua terrível experiência. Chegou mesmo a afirmar, contrapondo-se à sentença de Theodor Adorno, que, após a grande catástrofe, só esse tema é possível. E acrescentou que “a poesia era mais adequada do que a prosa para expressar o que pesava em mim.” Dois dos seus poemas mais emblemáticos - “Shemá” e “Carta para Adolf Eichmann” - emergem não só da necessidade de registar os horrores do cativeiro e da estupidez humana, mas também como alertas para a possibilidade de suceder nova catástrofe. 

Perante o papel da poesia e dos poetas em resposta (ou antecipação) ao terror e à crueldade, também Wislawa Szymborska (poeta polaca que viveu a invasão alemã e foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1996) reflectiu sobre o que distingue os poetas dos tiranos. No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, Wislawa afirma que os torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder “sabem”. Isto é, “não querem descobrir mais nada, uma vez que essa descoberta poderia reduzir a força dos seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas extingue-se depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida.” E, por saberem, não se interrogam a si próprios, gerando um conhecimento morto, uma ameaça para as sociedades. Já um poeta, “se é um poeta de verdade”, deve repetir constantemente para si mesmo: “não sei”. Cada poema é uma tentativa de resposta, sempre insuficiente. Num mundo tão espantoso, constituído também pelo nosso desamparo perante ele, os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à sua espera.

Szymborska acrescenta que esses mesmos torturadores e ditadores, fanáticos e demagogos, que não questionam o seu “saber” absoluto e definitivo (e talvez por isso mesmo), também “gostam do seu trabalho e cumprem suas obrigações com um fervor inventivo”. Esta observação transporta-nos imediata e necessariamente para o conceito (ainda hoje polémico e incompreendido) de “banalidade do mal”, criado pela filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt (1906–1975) no seu livro “Eichmann em Jerusalém”, cujo subtítulo é "um relato sobre a banalidade do mal". Neste livro, Arendt não se limita a descrever as atrocidades enumeradas e o desenrolar das sessões de julgamento, fazendo uma análise do "indivíduo Eichmann". Segundo ela, Adolf Eichmann não tinha um histórico ou traços antissemitas e não apresentava características de personalidade distorcidas ou patológicas. Terá agido segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender profissionalmente, na mais perfeita lógica burocrática. Ou seja, cumpria ordens sem as questionar, com o maior zelo e eficiência, sem reflectir sobre o bem ou o mal que pudessem causar.

É neste ponto em concreto que as perspectivas e obras destes três autores - Levi, Szymborska e Arendt (que também escreveu poesia) -, sendo diversas, se interseccionam: a capacidade do ser humano para a desumanização, suas origens e consequências. 

Ao interpelar o leitor com o verso “considerai se isto é um homem”, Primo Levi representa inequivocamente a desumanização dos oprimidos, o sequestro da identidade e da individualidade, mesmo depois de mortos, mas aponta também o dedo aos opressores, essas “criaturas desertas cercadas de morte”, em forma de pergunta para o futuro: qual a face da desumanização? E, ao fazê-lo, levanta o problema da própria desumanização no seu sentido inverso: enfrentar a catástrofe do Holocausto é assumir que, enquanto espécie, somos capazes de (e podemos ser responsáveis por) atrocidades terríveis, e que precisamos assumir princípios éticos que nos impeçam de nos matar uns aos outros e ao planeta. O conceito de humanidade será sempre o da atenção, aos outros e a nós próprios, sem desviar a dor do olhar, para que não nos transformemos nas bestas a que se refere o escritor e poeta inglês Samuel Johnson (1709-84): “Aquele que se permite tornar uma besta livra-se da dor de ser um homem.”

O papel da poesia surge, então, não apenas enquanto representação da memória e da individualidade, do que nos faz ser humanos e livres (e não apenas números ou despojos), e da capacidade de questionar, mas também como carta de fundamentos ontológicos e axiológicos nos quais se baseará a nossa humanidade de amanhã. Mais do que manifestos de competência lírica, os poemas são um testemunho para (ou mesmo do) futuro. É necessário que reflictam (sobre) o espírito do tempo para depois o extrapolar. Exemplo disto (e talvez mesmo uma possível constituição para essa pátria de dúvidas e questões que é o ser “sem saber”), é o poema de Szymborska, “Filhos da época”, no qual se lê: “Queiras ou não,/ os teus genes têm um passado político,/ a tua pele, um matiz político,/ os teus olhos, um aspecto político./ O que dizes tem ressonância,/ o que calas tem um eco/ de um modo ou de outro/ político”.

Ao poema cumpre disparar perguntas, também como gesto político, mas sempre com o olho atento que surge no final do poema de Cláudia R. Sampaio: “os homens, coitados, também não acabam/ vão-se deixando ficar sempre um restinho/ e vão restando, restando,/ disparando, disparando/ até serem apenas um só olho,/ muito aberto,/ atentíssimo,/ que consiga olhar para outro homem” (in “70 poemas para Adorno”, Nova Delphi).

É preciso a poesia para pensar e exacerbar a realidade, mesmo a terrível, até ao limite da metáfora, para a conseguir antecipar, fazer-lhe perguntas, mesmo que a resposta no fim seja, como bem diz Szymborska: “não sei”. E enquanto assim for, teremos muito por onde começar.

O Ciclo Poemar Consigo apresenta em Lisboa duas sessões (com convidados muito especiais) dedicadas a este tema, tendo por base o binómio “A banalidade do mal / O esquecimento do bem”, a partir de Hannah Arendt e Primo Levi, passando por outros autores cujas obras juntaram poesia, filosofia, política, dramaturgia e psicologia (e.g. Wislawa Szymborska, Victor Frankl, Ingeborg Bachman, Rosa Luxemburgo, Federico García Lorca, Theodor Adorno, Bertolt Brecht) ou cujos poemas se enquadram na mesma linha de testemunho e reflexão sobre a condição humana ante os horrores da guerra e a poética do sobrevivente, que, reduzido à condição de animal pelos monstros, se torna animal que sobrevive, em fuga e direcção à mais concreta evidência de vida e liberdade: a possibilidade de um futuro. Onde o ser também possa estar. 

 

Sinopse

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais forças para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

Primo Levi

 

Biografias

José Anjos nasceu em Lisboa (1978) e é formado em direito, poeta e músico. Tem quatro livros de poesia publicados e participa em vários projectos como baterista (não simão), guitarrista (Poetry Ensemble e mao-mao) e diseur (Lisbon Poetry Orchestra, No Precipício era o Verbo, Navio dos Loucos, O Gajo, Janela). Vive com um gato.

Paula Cortes é psicóloga clínica e psicoterapeuta existencial. É uma das vozes de colectivos como a Lisbon Poetry Orchestra, os Mao-Mao e os Poetry Ensemble.

Sérgio André Domingues Mendes é multi-instrumentista, com formação em Gestão de Recursos Humanos e Sistemas de Informação. Iniciou-se em bandas de covers em 1993 e, em 1999, lançou o primeiro disco e fez a primeira digressão com os Hands on Approach. De 2005 a 2015, gravou e tocou com Mazgani, seguindo-se colaborações com João Pedro Pais (2011) e A garota não (2019). Nos últimos anos, tem-se dedicado a produções, misturas e masterizações, além de atuar ao vivo com Um Corpo Estranho, Nuno Carpinteiro, Tio Rex, Tomara, Lena d’Água e A garota não.