Leonor Bettencourt Loureiro

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Percebi que era vídeo e cinema que queria fazer porque conjugava todas as artes que me interessavam. Chamam-lhe a sétima arte por algum motivo.

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O trabalho autoral é o que move toda a gente mas também me interessa ter um outro ponto de vista ou responder a um exercício.

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Aos 26 anos, pode parecer um pouco louco dizer que sempre se soube que se queria chegar até aqui e Leonor Bettencourt Loureiro é humilde na conversa. Mas a verdade é que há muito que trabalha para o que agora faz, como realizadora. Explica que considera que o trabalho só o é realmente a partir do primeiro pagamento e, para si, isso aconteceu há já 7 anos atrás. Na realidade, tinha 3 ou 4 anos quando as primeiras sementes do que viria a ser a Leonor Bettencourt Loureiro que temos diante de nós começaram a germinar em pouco segredo. Começou a construir cenários inteiros feitos da vida quotidiana das suas Barbies e depois roubava uma das câmaras fotográficas lá de casa (ambos os pais são jornalistas e um deles é também fotógrafo) e imortalizava toda esta mise-en-scène, até que a mãe começou a desafiá-la a fazer cada vez melhor. Como havia uma revista da Barbie, onde poderia publicar o seu über-precoce trabalho e assim partilhá-lo com outros, foi isso que começou a fazer, com cada vez mais dedicação.

 

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Nada interessa se não for partilhado. Se morrer no meu computador não me interessa absolutamente nada.

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Fast-forward para uma entrada na Academia RTP, que apoia novos talentos, e a criação do programa #Hashtag, que punha miúdos a falarem sobre os temas mais prementes e presentes das suas juventudes. Leonor é na realidade uma mistura de super-responsável jovem adulta com aquilo a que chamamos “a kid at heart” – espreitamos isso numa certa candura e curiosidade perante o mundo, e na tensão que sentimos na sua figura quando está a trabalhar. Um ano depois deste desafio chegou o convite para integrar a equipa da Antena 3, onde começou a pôr o audiovisual a mexer. Despediu-se, dois anos mais tarde, daquela que considera a experiência mais positiva para a sua vida profissional para se ter lançado depois como freelancer. Valoriza, e muito, as equipas mas tem uma forte tendência a querer fazer tudo sozinha.

 

“O último ano tem sido sobre delegar”, concede, algo levado ao expoente máximo quando chegou a altura de fazer o nosso projeto. Num acidente caseiro uns dias antes, Leonor rasgou um um dos tendões da mão direita e teve de entregar a tarefa física de filmar ao seu diretor de fotografia, Bruno Grilo. Já com um diretor de arte, ainda não se viu capaz de trabalhar como entende que deve ser, no sentido de conseguir dizer: “dentro deste universo, cria”. Justifica-o com uma incapacidade de conseguir libertar-se da plasticidade do que faz, e atribui isso à escultura que estudou na António Arroio e na Faculdade de Belas-Artes.

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A atenção ao detalhe cromático é a razão para ser escolhida para muitos projetos e uma ligação direta para a sua realizadora de eleição, Sofia Coppola. Se num projeto autoral, não força e deixa acontecer, o é naturalmente bem diferente um caso como o nosso namoro. Tendo limitações e ideias já propostas, Leonor desenha o resto do processo em palavras:

 

Materializando isto numa imagem, é como se tivesse uma biblioteca cheia de livros, artefactos e caixinhas com coisas e quando um cliente me dá um desafio, eu vou vasculhar aquelas coisas todas, que já vasculhei mil vezes, mas vou usar uma coisa nova que satisfaz ambas as partes.

 

Falamos no seu escritório imaculadamente branco e organizado, onde as caixas flutuam com certeza, imaginárias, e onde se senta nas suas roupas quase sempre estampadas.O estilo de Leonor é eclético como ela própria se afirma nos gostosde outras áreas. Mas duas coisas nunca lhe faltam: os sapatos, em muitos casos ténis, porque “queremos o que menos podemos ter” e calçar um número grande fá-la apreciar os que consegue encontrar; e as carteiras. Aqui apresentamo-la com um outro acessório que adaptou com desenvoltura: o lenço para segurar o braço com a mão engessada, o volteface como toque final.